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O bailarino basco

O joelho esquerdo interrompeu a carreira de Pirmim Treku no Royal Ballet. Há 40 anos que vive no Porto, a formar bailarinos.

Komunikabidea
Expresso, Jorge Fiel, Oporto
Mota
Erreportajea
Data
2001/04/27

Não fosse aquele maldito joelho, vítima de excesso de trabalho, e Pirmin dançaria uns bons dez anos mais - assim os músculos das suas pernas se continuassem a evidenciar elegantes por baixo das meias de «ballet» - dando-lhe tempo para preparar-se para a fase seguinte de uma vida marcada pela paixão obsessiva pela dança clássica.

Ele sabia que um dia iria dar aulas. Mas nunca esperou que fosse tão cedo ou que o seu destino o traria para o Porto (que desconhecia em absoluto), de onde lhe chegou o primeiro convite para formar bailarinos profissionais. Fernando Correia de Oliveira, o director do Parnaso, mal soube pelo British Council que havia um bailarino do Royal Ballet que ia dar aulas logo partiu para Londres para o contratar.

Aceitou a aventura de dar um salto no escuro, rumo ao desconhecido. Quando aterrou, não lhe doeu no joelho, mas na alma. Não foi fácil trocar Covent Garden pela Boavista. «Em 1961, o Porto era como uma aldeia. Muito bonito, mas excessivamente sossegado. Achei os portugueses muito fechados. Em Londres, havia o hábito de convidar as pessoas - 'let's go have a drink'. Aqui não», explica, acrescentando que o choque foi amortecido no início pelas «cocktail parties da colónia inglesa».

Quarenta anos depois mantém-se no Porto, dirigindo a Academia de Bailado Clássico Pirmin Treku, responsável pela formação de uma boa dezena das maiores e melhores vedetas nacionais do bailado. Mudou de coração (em 1991 fez um transplante) mas não de cidade. Habita num segundo andar duplex, na fronteira entre a Foz velha e a nova, com vistas para o mar, que foi o elemento decisivo para esta dilatada permanência. «Passei a gostar da gente daqui e de viver perto do mar.» Um mar que não é muito diferente do da baía da sua Zarauz natal, reproduzida no rótulo do txixota, o vinho basco, aparentado com o nosso verde, que bebericamos enquanto ele desfia as recordações de uma vida cheia, documentadas em fotografias a preto e branco que inspiravam as suas pequenas alunas, contagiando-as da paixão pela dança.

Os 40 anos que leva no Porto são mais de 60% da sua vida activa. Uma percentagem esmagadora que não chegou para apagar o correcto sotaque londrino e dispensar um processo trifásico - pensa em inglês, traduz para espanhol e fala em português.

Tinha sete anos quando, em 1937, o pai republicano e comerciante de móveis decidiu embarcá-lo para Inglaterra, para longe da guerra civil entre os «cuatro generales» e a Frente Popular. Pirmin e duas irmãs (uma com 12, outra com nove anos), três entre sete irmãos, foram evacuados de Bilbau e viajaram por mar, com quatro mil refugiados espanhóis, todos eles crianças, até Southampton. Ninguém desconfiava que estavam a saltar de uma guerra para outra, de uma guerra civil para a II Guerra Mundial.

Apoiado pela Cooperative Society, foi viver para o condado de Kent. Aprendido o inglês e esquecido o basco - o castelhano teve de voltar a estudá-lo já adolescente - foi para Belas Artes. Até que um dia, estava a guerra a acabar, levaram-no ao New Theatre ver o Royal Ballet dançar Giselle, com Margot Fonteyn como primeira bailarina. Foi «coup de foudre». De repente, naquela jovem cabeça de 14 anos fez-se luz, tudo se tornou claro. Queria ser bailarino. A sua vocação afinal não era o desenho, mas sim a dança.

Pediu uma audição a Ninette de Valois, e foi logo aceite. A directora do Royal Ballet arranjou-lhe uma bolsa e escreveu aos pais convencendo-os a não contrariarem o filho. Os Treku não ficaram exactamente entusiasmados com a perspectiva - «Não estava bem visto ser bailarino», reconhece.

Acrescentando o excessivo trabalho (que lhe daria cabo do joelho) ao talento que Ninette reconheceu à primeira, chegou a primeira figura e fez uma carreira em Inglaterra e pelo Mundo, em digressão, percorrendo a América, de costa a costa, e os santuários da Commonwealth - Canadá, África do Sul, Rodésia.

«Those were the days.» Não era muito bem pago, mas o dinheiro chegava para um apartamento pequeno. Não tinha carro, mas em Londres, nos anos 50, quem precisava de carro próprio? O «tub» servia às mil maravilhas para as deslocações entre aulas e ensaios em Hammersmith e os espectáculos em Covent Garden. E sobravam libras suficientes para financiar o mês de férias na praia, em San Jean de Luz, perto de Biarritz, no País Basco francês - não ter cumprido o serviço militar impedia-o de gozar as delícias do sol no país natal.

A enorme paixão pela dança fazia as vezes de bálsamo que suavizava a dureza das muitas horas a fio de aulas e ensaios, bem como uma alimentação com o seu quê de espartano. Como os fatos eram muito apertados, optava por não almoçar. Só comia à noite, uns bifes, saladas e iogurtes. Os bailarinos por norma não bebiam, mas de vez em quando, em momentos especiais, havia uns copos de champanhe ou de vinho tinto.

A regra da frugalidade admitia excepções que permitiram a Pirmin adquirir dotes culinários que Cristina Maciel recorda, a propósito dos jantares festivos que organizava em sua casa a seguir a espectáculos especiais na escola: «É um óptimo anfitrião.Punha o avental e metia-se na cozinha a fazer sopas estupendas, em que misturava uma série de coisas, parecia sopa de pedra.» Cristina foi sua aluna e chegou a primeira bailarina da Companhia Nacional de Bailado, onde agora dá aulas.

A academia de bailado com o seu nome, que fundou depois de um ano no Parnaso e acaba de festejar o 40º aniversário, é, segundo Vasco Macide, «uma referência incontornável na dança clássica».

O programador de dança da Porto 2001 diz que Pirmin «foi a única pessoa que investiu e se manteve no Porto com um nível artístico excelente», salientando o rigor e exigência do basco. «Ele é superexigente. Na hora marcada tínhamos de estar impecáveis no uniforme da escola. Ai de nós se chegávamos atrasadas, mal penteadas ou mal vestidas», lembra Cristina Maciel.

«Quando se faz uma coisa tem de se fazer a sério», diz Pirmin, responsável pela formação de uma ínclita geração de bailarinas - Fátima Lima, Luísa Taveira, Cristina Maciel, Cláudia Nóvoa, Guiomar Machado, entre outras e outros (como Alfredo Gesta).

Para se ser excepcional, explica o mestre basco, é preciso reunir uma série de condições. Proporções físicas, para começar: ombros largos, cintura pequena, peito do pé bem arcado e não ter as ancas nem o rabo largos. Depois tem de se ser inteligente e ter talento - o que é muito raro, aparece um/a em cada cem. «A técnica não chega para o público ficar satisfeito. A técnica serve para expressar o talento.»

Para terminar a receita, o trabalho é fundamental. Um grande sentido de sacrifício para aguentar aulas, ensaios e «tournées», levando uma vida regrada - sair à noite para ir à discoteca é proibido.

Ser bailarino é mais difícil do que ser futebolista? Pirmin jura que sim: «O futebolista não se aplica da mesma maneira em todos os jogos. Só dá tudo nos mais importantes. No bailado todos os dias são grandes noites.»

Com 30 anos de intervalo, sentiu duas vezes no corpo a dureza da profissão. Em 1961, quando o joelho o obrigou a deixar de ser bailarino, e em 1991 quando o coração de origem ultrapassou o prazo de validade e teve de ser trocado. «Quando digo que o 'ballet' é duro é porque é mesmo duro.»

Aos 60 anos, respirava com dificuldade. O corpo estava inchado e custava-lhe muito a subir as escadas até ao 2º andar onde habita na Rua de Diu. Foi para Lisboa, e ficou internado no Hospital de Santa Cruz, à espera de um coração novo que nunca mais aparecia. Desesperou de tanta espera. Os irmãos levaram-no para Santander. Pouco tempo depois soou o alarme: «Prepara-te, vem aí um coração para ti.» O coração que comanda há dez anos a vida do professor de «ballet» era de um jovem de 15 anos. Também basco. De Bilbau.

Na cama do hospital, Pirmin, que durante seis anos nucleares (entre os 10 e 16) formou Cristina Maciel, ainda teve capacidade para a surpreender com a sua indómita força de vontade. «Quando ele estava no Hospital de Santa Cruz, como eu morava lá perto, ia visitá-lo todos os dias ao fim da tarde. Estendido na cama, em pele e osso, ele relatava-me entusiasmado os planos para o futuro da escola que tinha passado o dia entretido a gizar. Depois pedia-me para o ajudar a fazer uns exercícios com as pernas para não perder a flexibilidade. Era incrível.» O mesmo entusiasmo que lhe permitiu organizar, aos 70 anos, no Coliseu do Porto, a festa do 40º aniversário da sua Academia de Bailado. A mesma alegria de viver que o leva a começar a pensar na festa do meio século, marcada para 2011. Terá então 81 anos - mas um coração de 35.